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A arte é o espelho da pátria.
O país que não preserva os seus valores culturais
Jamais verá a imagem de sua própria alma.


- Chopin

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O biênio 2003-2004 marca um importante acontecimento para o Brasil: o centenário de nascimento do pintor Candido Portinari. Quem foi esse homem, Portinari? Quem foi esse pintor? Por que essa data é tão importante para nós?

Portinari nasceu em 30 de dezembro de 1903 numa fazenda de café do interior do Estado de São Paulo. Viveu sua infância na pequena Brodowski, pouco mais do que uma parada para o trem carregar o café, e assim descrita pelo pintor: "…pequenininha, duzentas casas brancas de um andar, no alto de um morro espiando para todos os lugares… lugar arenoso no meio da terra roxa cafeeira. Imenso céu azul circula o areal. Milhares de brancas nuvens viajam".

Segundo de doze irmãos, Portinari era filho de Dominga e Baptista, italianos que, crianças ainda, emigraram com suas famílias para o Brasil, para trabalhar na lavoura do café. Além de plantar o café, plantaram também o grande pintor brasileiro. Portinari criou-se como outras crianças da roça, ouvindo histórias de lobisomem e almas do outro mundo, saci-pererê e mula-sem-cabeça, de príncipes e princesas, montando cavalo a pêlo, colhendo manga e admirando as meninas do povoado, onde a garotada brincava de carniça e de pegar, acompanhava o circo, as procissões e a banda de música, empinava pipa e jogava futebol.

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Observador, o menino Candinho impressionava-se com os pés dos lavradores das fazendas de café: "Pés disformes. Pés que podem contar uma história. Pés semelhantes aos mapas, com montes e vales, vincos como rios. Quantas vezes, nas festas e bailes, no terreiro, que era oitenta centímetros mais alto do que o chão, os pés ficavam expostos e era divertimento de muitos apagar a brasa do cigarro nas brechas dos calcanhares sem que a pessoa sentisse" - ele relembra num relato autobiográfico escrito poucos anos antes de sua morte.

Relembra também os devaneios de menino criado no campo: "Eram belas as manhãs frias na época da apanha do café e delicioso o canto dos carros de boi transportando as sacas da colheita. Quantas vezes adormecíamos sobre as sacas. A luz do sol parecia mais forte. Era somente para nós. Ia pela estrada afora o carro vagaroso, cantando. Dormíamos cheios de felicidades. Sonhávamos sempre, dormindo ou não. Nossa imaginação esvoaçava pelo firmamento (...). À noite, deitávamos na grama ao redor da igreja e de barriga para cima ficávamos vendo as estrelas e sonhando; um perguntava ao outro o que desejava ser - as respostas eram ambiciosas: um desejava ser rei, outro general, aquele dono de circo".

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Para o menino Candinho, a profissão chegou quase como brincadeira. Primeiro, foi um leão que desenhou na aula. O desenho foi comentado por professores e alunos. Não o deixaram mais em paz: teve que desenhar a capa das provas a serem expostas no final do ano. Tempos depois, vieram de Ribeirão Preto uns pintores para trabalhar na igreja. O menino Portinari os ajudou, enchendo o fundo do altar de estrelas. O que mais gostava era de misturar as tintas. Quando se apresentou a ocasião de partir para o Rio de Janeiro, já estava decidido a pintar. Tinha pouco mais de 15 anos e passou noites sem dormir, ainda indeciso: "Pena de deixar meus pais e meus irmãos..." Sente saudades antecipadas: "O sol, a lua, as estrelas, as águas do rio, o vento, tudo ficaria lá e eu entraria no escuro".

Daí para a Escola de Belas Artes foi quase um pulo. Depois veio o prêmio de viagem ao exterior, do Salão Nacional de Belas Artes, em 1929, para Paris. Mas lá Portinari pensa em sua terra e sente saudades. Vem-lhe à lembrança Palaninho, um dos mais humildes habitantes de Brodowski: "(…) bigode empoeirado e ralo e com algumas falhas; e só tem um dente. Usa umas calças brancas feitas de saco de farinha de trigo (…) ainda se nota o carimbo da marca da farinha. Embaixo ele amarra as calças com palha de milho para não apanhar lama - não usa botina nos dias de semana (…). Usa paletó escuro listrado, com uma golinha muito pequena e quatro botões: - três pretos e um branco".

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O jovem pintor se espanta: "Vim conhecer aqui em Paris o Palaninho, depois de ter visto tantos museus e tantos castelos e tanta gente civilizada. Aí no Brasil eu nunca pensei no Palaninho (...). Eu uso sapatos de verniz, calça larga e colarinho baixo e discuto Wilde, mas no fundo ando vestido como o Palaninho e não compreendo Wilde.".

Palaninho foi o começo de uma revelação: "Daqui fiquei vendo melhor a minha terra - fiquei vendo Brodowski como ela é. Aqui não tenho vontade de fazer nada. Vou pintar o Palaninho, vou pintar aquela gente com aquela roupa e aquela cor ".

Promessa cumprida até o último suspiro, como atesta Jorge Amado:

Candido Portinari nos engrandeceu com sua obra de pintor. Foi um dos homens mais importantes do nosso tempo, pois de suas mãos nasceram a cor e a poesia, o drama e a esperança de nossa gente. Com seus pincéis, ele tocou fundo em nossa realidade. A terra e o povo brasileiros - camponeses, retirantes, crianças, santos e artistas de circo, os animais e a paisagem - são a matéria com que trabalhou e construiu sua obra imorredoura.

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Em quase cinco mil obras, de pequenos desenhos a grandes murais, este pintor fixou para sempre a fisionomia da sua terra e do seu povo:

A OBRA DE PORTINARI É COMO UMA GRANDE CARTA QUE ELE ESCREVE AO POVO BRASILEIRO.

UMA CARTA QUE AINDA NÃO FOI ENTREGUE.

Mais de 95% da obra do maior pintor brasileiro contemporâneo está hoje inacessível ao público, guardada em coleções particulares. O que foi feito do trabalho de um homem que, durante toda sua vida, exprimiu emocionadamente a alma, o povo e a vida brasileira?
"PORTINARI, O PINTOR. UM FAMOSO DESCONHECIDO", O GLOBO, 06/01/1980

O CENTENÁRIO DE PORTINARI É O MOMENTO DE ENTREGAR ESTA CARTA AO DESTINATÁRIO, O POVO BRASILEIRO, ONDE QUER QUE ELE ESTEJA.

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