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Página Inicial » Apresentação O país que não preserva os seus valores culturais Jamais verá a imagem de sua própria alma. - Chopin
Portinari nasceu em 30 de dezembro de 1903 numa fazenda de café do interior do Estado de São Paulo. Viveu sua infância na pequena Brodowski, pouco mais do que uma parada para o trem carregar o café, e assim descrita pelo pintor: "…pequenininha, duzentas casas brancas de um andar, no alto de um morro espiando para todos os lugares… lugar arenoso no meio da terra roxa cafeeira. Imenso céu azul circula o areal. Milhares de brancas nuvens viajam". Segundo de doze irmãos, Portinari era filho de Dominga e Baptista, italianos que, crianças ainda, emigraram com suas famílias para o Brasil, para trabalhar na lavoura do café. Além de plantar o café, plantaram também o grande pintor brasileiro. Portinari criou-se como outras crianças da roça, ouvindo histórias de lobisomem e almas do outro mundo, saci-pererê e mula-sem-cabeça, de príncipes e princesas, montando cavalo a pêlo, colhendo manga e admirando as meninas do povoado, onde a garotada brincava de carniça e de pegar, acompanhava o circo, as procissões e a banda de música, empinava pipa e jogava futebol.
Relembra também os devaneios de menino criado no campo: "Eram belas as manhãs frias na época da apanha do café e delicioso o canto dos carros de boi transportando as sacas da colheita. Quantas vezes adormecíamos sobre as sacas. A luz do sol parecia mais forte. Era somente para nós. Ia pela estrada afora o carro vagaroso, cantando. Dormíamos cheios de felicidades. Sonhávamos sempre, dormindo ou não. Nossa imaginação esvoaçava pelo firmamento (...). À noite, deitávamos na grama ao redor da igreja e de barriga para cima ficávamos vendo as estrelas e sonhando; um perguntava ao outro o que desejava ser - as respostas eram ambiciosas: um desejava ser rei, outro general, aquele dono de circo".
Daí para a Escola de Belas Artes foi quase um pulo. Depois veio o prêmio de viagem ao exterior, do Salão Nacional de Belas Artes, em 1929, para Paris. Mas lá Portinari pensa em sua terra e sente saudades. Vem-lhe à lembrança Palaninho, um dos mais humildes habitantes de Brodowski: "(…) bigode empoeirado e ralo e com algumas falhas; e só tem um dente. Usa umas calças brancas feitas de saco de farinha de trigo (…) ainda se nota o carimbo da marca da farinha. Embaixo ele amarra as calças com palha de milho para não apanhar lama - não usa botina nos dias de semana (…). Usa paletó escuro listrado, com uma golinha muito pequena e quatro botões: - três pretos e um branco".
Palaninho foi o começo de uma revelação: "Daqui fiquei vendo melhor a minha terra - fiquei vendo Brodowski como ela é. Aqui não tenho vontade de fazer nada. Vou pintar o Palaninho, vou pintar aquela gente com aquela roupa e aquela cor ". Promessa cumprida até o último suspiro, como atesta Jorge Amado:
A OBRA DE PORTINARI É COMO UMA GRANDE CARTA QUE ELE ESCREVE AO POVO BRASILEIRO. UMA CARTA QUE AINDA NÃO FOI ENTREGUE. Mais de 95% da obra do maior pintor brasileiro contemporâneo está hoje
inacessível ao público, guardada em coleções particulares. O que foi feito
do trabalho de um homem que, durante toda sua vida, exprimiu emocionadamente
a alma, o povo e a vida brasileira? O CENTENÁRIO DE PORTINARI É O MOMENTO DE ENTREGAR ESTA CARTA AO DESTINATÁRIO, O POVO BRASILEIRO, ONDE QUER QUE ELE ESTEJA.
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